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A Mulher Visível

  • Foto do escritor: Fernando Belucci
    Fernando Belucci
  • 23 de out. de 2023
  • 5 min de leitura


Pela janela, conseguiu ver passar três deles voando. A capa refletia o sol e, da terceira, conseguiu ver o balanço da saia rodada e cheia de pontas.

Tentou até esticar um pouco mais o rosto, mas levou uma bronca da enfermeira.


_Você pode vê-los todo dia, preste atenção nos nossos comandos. - Ouviu de argumento. Era uma verdade, mas não deixava de ser belo. Pediu desculpas e reencostou as costas na cama. Ajustou as pernas.


_Boa tarde, futura mãe. - Ouviu da mulher de branco entrando na porta. Apesar da máscara, reconheceu a voz da doutora.


_Eles passaram voando, Doutora. Deu para ver três...


_Minha querida, eu sei que está empolgada. Para que dar atenção aos superpoderosos de lá da janela, você terá o seu em segundos. Mas se continuar sem forçar, será horas.


Diziam que antes ela nem ligava tanto para namoros, sexo, amores. Flertes eram chatos: demorados e tediosos. Tempo desperdiçado quando se poderia estar lendo quadrinhos, vendo casos reais sobre os super=heróis na televisão, juntando reportagens dos seus prediletos e se lembrando de cada momento que passou perto ou até mesmo falou com um. Gastou 300 dólares para conhecer o Capitão Tocha, o flash não ajudou e a foto ficou estourada. "Tudo bem", se convencia diariamente, "a lembrança não será apagada". Depois de muito incentivo da sua irmã e mãe, resolveu se aventurar em um relacionamento. "Não pode ficar até os 30 sem transar", dizia a irmã, "Quer morrer sem ninguém?", dizia a mãe. De primeira, ele apenas tentava a agradar com revistas, recortes, eventos, apenas para chegar até o ápice. Para ele, não era conhecer o Capitão Tocha, mas acender a sua própria. Por insistência dele, até por tanto que ele agradou com presentinhos, cedeu. Doeu no começo, foi até prazeroso, mas no final, pensou: "super-valorizado".


No dia seguinte, o tal namorado usou sua supervelocidade e fugiu. Na verdade, ele não tinha esse poder, mas demonstrou emulá-lo tão bem com sua falta de caráter. Foi rápido o suficiente que nem chegou a ver os primeiros sinais de enjôo e tonturas. Antes dos exames, a irmã e a mãe já estavam gritando que não cuidariam de um filho sem pai e que, talvez, a falta de empatia dela com os humanos "normais" o fez afastar dela.


Quando conheceu a doutora, estava totalmente perdida. Nem se lembra quem marcou a consulta, mas agradece por tê-la conseguido. Foi lá naquela sala que fez os exames. Estes viram saúde, viram tipo de sangue, e a tipificação do gene. Ela então descobriu que o de Bill, o nome que escolheu na hora, tinha o Gene Super. A partir exatamente dali, parecia entender sua parte naquela caos.


Estava então finalmente forçando, jogando toda sua forma e respirando repetidamente para soltar o bebê e fazê-lo conhecer o mundo. Começou a perder o ar em alguns momentos, mas seguia a persistência da médica aos gritos. Ao sentir a passagem dele, veio a sensação de tecidos rasgados e a dor foi pior ainda. Só tentava imagina qual seria o dom deste, como ele pareceria. sabia que ao cortar o cordão umbilical descobriria, mas nem teve forças pra isso, ouviu o silêncio na sala e já caiu as costas na cama, desfalecida.


O escuro e o silêncio foram seus parceiros pelas próximas horas. Como um feixe de luz, viu a fenda de imagem surgindo, com a encubadora ao lado. Por um segundo travou, mas sorriu. Os quatros lados transparentes se via apenas o outro lado. Com dores nas costas e nas pernas, não conseguiu forçar muito o corpo em direção, mas começou a esticar o braço. As rodinhas estavam desalinhadas, mas foram se ajeitando até cederam a sua vontade.


Enfiou a mão dentro da cúpula de vidro, mas foi censurada novamente.


_Senhora, não pode fazer isso! - avisou a enfermeira, de olhos arregalados.


_É meu filho! Posso sim! - insistiu e enfiou a mão. Estava ansiosa e então chacoalhou a mão para lá e para cá, sentiu. O brilho nos olhos castanhos da mãe surgiu em companhia dos dentes a mostra, estes tão raros de aparecerem que até os funcionários se impressionaram. Ficaram assustados.


Com ele ao colo, o abraçou com medo de o machucar, mas sabia que aquilo aí que não via era parte sua. Sentia seu calor. A partir daí, nada mais importava.


A Doutora, na saída do hospital, a abordou enquanto o enfermeiro empurrava a cadeira de rodas. Ela mal a ouvia, o sorriso contagiante a fazia esquecer, ou até mesmo não precisar, ser simpática e manter as leis básicas do bom convívio.

Sentiu apenas um beijo no rosto, e continuou rumo a porta de saída.


Tinha conseguido, nos últimos dias de gestação, uma pequena kitnet próximo ao centro da cidade, com móveis velhos e rasgados. Panos pendurados pelo teto dos cômodos, estes de cores amarronzadas e cheiro de mofo. Arrancou alguns, antes de ir ao parto, mas na volta não tinha forças para arrumar o local, decidiu apenas de começo ficar no sofá.


Os primeiros dias, ele apenas chorava. Até que entendeu o conceito de dar os seios a ele. Tentou achar a boca e logo colocou direto ao bico. Vendo o leite escorrer, percebeu a fome.


Nos próximos dias, começou a mais e mais correr atrásvde melhorar seu empenho como mãe. Comprou fraldas, lenços umedecidos, pomadas anti-assaduras. Aos poucos foi pegando o jeito.


O jeito de trocar a fralda era pelo cheiro, pois assim como ele os dejetos eram perceptíveis aos olhos. "Talvez é melhor assim do que se fosse um com super força, destreza. Teria destruído meu útero."


Em um dia desses, alguém bateu à porta.


Ela segurou o bebê nos braços e se aproximou da porta com cuidado, ainda surpresa ao vê-lo em sua porta. Ao abrir, deparou-se com um homem de sorriso gentil, com cabelos escuros, grandes músculos e sua capa radiante.


_Boa Tarde. - disse o homem, ainda mantendo seu peitoral cheio e os olhos radiantes. - Ouvi falar que houve um nascimento especial aqui recentemente. Vim dar minhas felicitações.


A mãe, ainda surpresa, sorriu.


_Este é o meu filho, Bill. - Ela apresentou o seu bebê, com o cobertor macio entre os braços.


O grande homem olhou atentamente para o bebê, vendo através de sua frágil forma. Para sua surpresa, não encontrou nenhum osso, órgãos internos ou qualquer estrutura biológica que compõe um ser humano. Era como se o bebê fosse uma ilusão.


Com os olhos emaranhados, o super-herói dirigiu seu olhar de volta para a mãe. Embora grossa e firme, com uma voz suave, ele disse:


_Você é uma mãe corajosa, e seu amor por Bill é verdadeiro. Mesmo que ele seja diferente, ele sempre terá um lugar especial no seu coração.


Ela sentiu uma conexão instantânea com o homem, mais forte que antes. Era como se ele soubesse algo que os outros não sabiam.


_Você parece entender.


Ele assentiu.


_Bem, eu entendo um pouco sobre o que é ser diferente. Às vezes, as pessoas não compreendem que poderes especiais não é só voar e enfrentar vilões.


Ela assentiu, compreendendo as palavras de dele.


_Espero que Bill cresça em um mundo onde ele possa ser aceito por quem é.


O homem fez uma pausa e olhou nos olhos da mãe.


_Lembre-se sempre, o amor e o cuidado que você dá a ele farão toda a diferença. E, se algum dia ele precisar de orientação ou apoio, estarei aqui para ajudar.


A mãe agradeceu a generosidade e o convidou a entrar. Com um sorriso caloroso, ele aceitou o convite e passou algum tempo conversando com ela sobre a jornada que estava prestes a começar.


Assim, naquela tarde inesperada, uma nova amizade nasceu, e a mãe de Bill sentiu que, apesar dos desafios que poderiam surgir, havia um apoio genuíno e amor incondicional à sua disposição. Com o bebê Bill nos braços e a sua nova amizade, ela estava pronta para enfrentar o futuro com esperança e determinação.



Após um tempo, ele deu um aceno de despedida e voou para longe, deixando a mãe com uma sensação de alívio. Sentiu que, apesar dos desafios, havia um apoio genuíno do maior de todos à sua disposição.


Assim, continuou a cuidar da sua cria, era hora de amamentá-lo.

 
 
 

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